"Vivo da floresta, protejo ela de todo o jeito, por isso vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque vou para cima, eu denuncio. Quando vejo uma árvore em cima do caminhão indo para uma serraria me dá uma dor. É como o cortejo fúnebre levando o ente mais querido que você tem, porque isso é vida para mim que vivo na floresta e para vocês também que vivem nos centros urbanos."

Zé Claudio, assassinado em maio de 2011.



quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carta de um índio - versão 2010

Aqui fica meu apoio escrachado, integral e absoluto aos índios, as populações ribeirinhas, as ongs internacionais, aos americanos, aos ténicos do IBAMA que não compactuaram com falcatruas internas e todas as outras pessoas do Brasil e do planeta que também entendem que Belo Monte é um desrespeito a humanidade!


Nós, indígenas do Xingu, não queremos Belo Monte


Por Cacique Bet Kamati Kayapó, Cacique Raoni Kayapó Yakareti Juruna
20/04/2010


Nós, indígenas do Xingu, estamos aqui brigando pelo nosso povo, pelas nossas terras, mas lutamos também pelo futuro do mundo.

O presidente Lula disse na semana passada que ele se preocupa com os índios e com a Amazônia, e que não quer ONGs internacionais falando contra Belo Monte. Nós não somos ONGs internacionais.

Nós, 62 lideranças indígenas das aldeias Bacajá, Mrotidjam, Kararaô, Terra-Wanga, Boa Vista Km 17, Tukamã, Kapoto, Moikarako, Aykre, Kiketrum, Potikro, Tukaia, Mentutire, Omekrankum, Cakamkubem e Pokaimone, já sofremos muitas invasões e ameaças. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, nós índios já estávamos aqui e muitos morreram e perderam enormes territórios, perdemos muitos dos direitos que tínhamos, muitos perderam parte de suas culturas e outros povos sumiram completamente. Nosso açougue é o mato, nosso mercado é o rio. Não queremos mais que mexam nos rios do Xingu e nem ameacem mais nossas aldeias e nossas crianças, que vão crescer com nossa cultura.

Não aceitamos a hidrelétrica de Belo Monte porque entendemos que a usina só vai trazer mais destruição para nossa região. Não estamos pensando só no local onde querem construir a barragem, mas em toda a destruição que a barragem pode trazer no futuro: mais empresas, mais fazendas, mais invasões de terra, mais conflitos e mais barragem depois. Do jeito que o homem branco está fazendo, tudo será destruído muito rápido. Nós perguntamos: o que mais o governo quer? Pra que mais energia com tanta destruição?

Já fizemos muitas reuniões e grandes encontros contra Belo Monte, como em 1989 e 2008 em Altamira-PA, e em 2009 na Aldeia Piaraçu, nas quais muitas das lideranças daqui estiveram presentes. Já falamos pessoalmente para o presidente Lula que não queremos essa barragem, e ele nos prometeu que essa usina não seria enfiada goela abaixo. Já falamos também com a Eletronorte e Eletrobrás, com a Funai e com o Ibama. Já alertamos o governo que se essa barragem acontecer, vai ter guerra. O Governo não entendeu nosso recado e desafiou os povos indígenas de novo, falando que vai construir a barragem de qualquer jeito. Quando o presidente Lula fala isso, mostra que pouco está se importando com o que os povos indígenas falam, e que não conhece os nossos direitos. Um exemplo dessa falta de respeito é marcar o leilão de Belo Monte na semana dos povos indígenas.

Por isso nós, povos indígenas da região do Xingu, convidamos de novo o James Cameron e sua equipe, representantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre (como o movimento de mulheres, ISA e CIMI, Amazon Watch e outras organizações). Queremos que nos ajudem a levar o nosso recado para o mundo inteiro e para os brasileiros, que ainda não conhecem e que não sabem o que está acontecendo no Xingu. Fizemos esse convite porque vemos que tem gente de muitos lugares do Brasil e estrangeiros que querem ajudar a proteger os povos indígenas e os territórios de nossos povos. Essas pessoas são muito bem-vindas entre nós.

Nós estamos aqui brigando pelo nosso povo, pelas nossas terras, pelas nossas florestas, pelos nossos rios, pelos nossos filhos e em honra aos nossos antepassados. Lutamos também pelo futuro do mundo, pois sabemos que essas florestas trazem benefícios não só para os índios, mas para o povo do Brasil e do mundo inteiro. Sabemos também que sem essas florestas, muitos povos irão sofrer muito mais, pois já estão sofrendo com o que já foi destruído até agora. Pois tudo está ligado, como o sangue que une uma família.

O mundo tem que saber o que está acontecendo aqui, perceber que destruindo as florestas e povos indígenas, estarão destruindo o mundo inteiro. Por isso não queremos Belo Monte. Belo Monte representa a destruição de nosso povo.

Para encerrar, dizemos que estamos prontos, fortes, duros para lutar, e lembramos de um pedaço de uma carta que um parente indígena americano falou para o presidente deles muito tempo atrás: " Só quando o homem branco destruir a floresta, matar todos os peixes, matar todos os animais e acabar com todos os rios, é que vão perceber que ninguém come dinheiro " .



Cacique Bet Kamati Kayapó, Cacique Raoni Kayapó Yakareti Juruna, representando 62 lideranças indígenas da Bacia do Xingu


E saibam que não estão sozinhos! Ainda há nesse mundo, pessoas de pele branca, que não compactuam com a forma de se viver escolhida pelo ser-humano. Há, por aqui, quem ainda respeita a vida, em todas suas formas e manifestações e o dinheiro não paga esse sentimento, todos esses princípios. Pra nós, a vida ainda valhe mais que uma conta bancária recheada com dinheiro, fruto de matança, desmatamento e intervenção.


2 comentários:

Caminhando pela História disse...

Compreendo sua indignação mas não compartilho o seu apoio a ONGs internacionais e muito menos aos americanos que massacraram literalmente seus povos indígenas, massacraram plantadores de arroz no Vietnã, mentiram ao invadir o Iraque e se meteram em uma Guerra sangrenta e sem fim no oriente médio. Eles fazem isso por liberdade ou ideologia? Claro que não!! Acredito que como nação já somos esclarecidos o suficiente para nos mobilizar e resolver os nossos problemas. Até hoje os americanos não assinaram o Tratado de Kyoto e boicotaram um possível tratado em Copenhaguem. Será que o Sr. Cameron lidera algum movimento ecológico nos EUA?

Mariana M. Thomé disse...

Caminhando pela História - Também entendo seu repúdio aos americanos, que de fato, foram massacradores e interfiraram nefastamente em vários caítulos da história. Mas sentenciar uma nação atual pelos crimes cometidos por seus antecessores também é injusto e generaiza demais. Quanto ao Sr. Cameron, de fato, não o que ele apoia em seu país, sei apenas que dentro do seu papel de cineasta mostrou um pouco do mundo que a maioria das pessoas nem consegue enxergar. E na minha humilde opinião trazer conhecimento e provocar questionamentos têm o seu valor. E, especificamente, nessa causa (Belo Monte) apoio todos aqueles que pensam como eu, seja qual for sua nacionalidade. Porque aqui no Brasil só não invadimos e destruimos o que não nos pertence simplesmente porque somos ainda um país de 3º mundo. Se tivéssemos mais influência e dinheiro não sei que capítulos da história teríamos tornado mais sangrentos e isso, ainda assim, não anularia a conduta, o comprometimento e o bom trabalho de tanto outros brasileiros que repelem essas atrocidades e esses ditadores de terno e gravata com contas abarrotadas com o dinheiro alheio. Enfim, ainda assim agradeço muito seu comentário, porque não sou a dona da verdade e pontos de vista diferente sempre nos lançam uma pontinho de luz, capaz de nos fazer raciocinar um pouco mais. Obrigada!

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