"Vivo da floresta, protejo ela de todo o jeito, por isso vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque vou para cima, eu denuncio. Quando vejo uma árvore em cima do caminhão indo para uma serraria me dá uma dor. É como o cortejo fúnebre levando o ente mais querido que você tem, porque isso é vida para mim que vivo na floresta e para vocês também que vivem nos centros urbanos."

Zé Claudio, assassinado em maio de 2011.



sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ser vegetariano definitivamente não é um bicho de 7 cabeças!

No dia 15, deste mês, inauguramos por aqui, as colunas externas. Nada mais, nada menos que a participação de pessoas diferentes, blogueiras ou não, com ou sem alguma especialidade específica, mas que enfim, através de seus textos trarão assuntos já discutidos ou ainda não mencionados, vistos por outra óptica que não a minha. A idéia inicial seria uma participação por mês, mas como muita gente aceitou escrever também por aqui serão dois textos por mês...

E hoje é a vez da Luka Pires, que vai falar sobre a sua alimentação vegetariana. Um tema que ainda faltava no blog e que muito me interessa. Quem sabe o relato dela não inspire mais pessoas a descobrir as delicias da culinária vegetariana.



Quero compartilhar com vocês minha estória de como me tornei vegetariana  há 5 anos atrás e mostrar que muitas das coisas que você ouve sobre vegetarianismo podem ser um mito. Minha mãe conta que quando eu era bem criancinha, com 4 anos, ela me levou ao açougue. Era um dia comum, e ela precisava reabastecer o congelador. Chegando no açougue, me deparei com a cena muito comum na epóca de venderem cabeças de porco cortadas ao meio e expostas assim. Minha mãe conta que comecei a chorar sem mais nem menos e todos que estavam no açougue acharam estranho. Quando ela me perguntou o porquê do choro, apontei pra cabeça do pobre porco e disse : " - Mamãe, mataram o cachorro!"

Pode parecer engraçado, se não fosse trágico. na minha inocência de criança eu via aquilo como um assassinato. Crianças são puras. Mas eu cresci num lar não vegetariano e toda aquela inocência se foi. Porém sempre adorei animais, principalmente gatos e passáros. Resgatava gatos, levava pra casa, cuidava. E assim o tempo passou.

Numa viagem de férias em família, começamos a fazer um churrasco e só tinha carnes aquele dia, nada de acompanhamentos. Comi tanta carne aquele dia, que após um tempo comecei me sentir mal. Não mal fisicamente. Comecei a pensar naqueles animais que eu havia ingerido e me perguntava: "Eu gosto tanto de bicho, porque devo comer carne? Será que se eu parar de comer carne vou ficar fraca ou adoecer?Será que é saudável ser vegetariano? Milhares de perguntas povoavam minha mente. Até que meu enteado na epóca com 5 anos me perguntou porque eu estava tão calada. Comentei com ele, de uma maneira que ele fosse entender, que pensava em virar vegetariana. E ele de novo naquela inocência infantil me disse " - Porque você então não para de comer carne? Se for pra você ficar triste assim, então para!"

Fiquei pensando nas palavras sábias dele. E comecei a ler e a pesquisar sobre vegetarianismo compulsivamente. Eu tinha que ter certeza onde eu estava pisando. Um cunhado meu trabalhou num abatedouro de porcos, e perguntei pra ele sobre como era feito e ele me disse barbaridades em tom de deboche. Como que se aqueles animais nasceram mesmo pra aquele fim, que eram isentos de sentimentos, e que a morte por muitas vezes era lenta e dolorida e cruel. Continuei minhas leituras sobre os abatedouros. A grande maioria da população não tem a menor noção do que se passa nesses locais, da dor que existe ali, da indiferença com a vida , com a falta de respeito com aquelas criaturas. Você ja parou pra pensar que eles sofrem? Que eles sentem dor? E pior: que ali naquela fila do abate, eles sentem os cheiros vindos de lá de dentro, do sangue, dos gritos e lamentos, que sentem que algo terrível esta pra acontecer e que não querem morrer??? Muitos tentam dar meia volta. Mas é tarde demais.

Não vou me delongar no sofrimento dos abatedouros. Procurem pesquisar sobre eles e se espantarão mais o quanto lerem. Deixo a frase celebre do Paul Mcartney, ex beatle:

"Se os matadouros tivessem paredes de vidros, todos seriam vegetarianos"

Em 2010 completei 5 anos sem comer nenhum tipo de carne. Meus últimos exames recentes de B12, Ferro e outros deram taxas acima do esperado. Minha alimentação é baseada nas coisas que você encontra nas feiras livres : verduras, legumes, frutas. A combinação de arroz com feijão sempre é a melhor. Eventualmente consumo soja, ou faço pratos diferentes. Não sinto nenhuma falta da carne,pelo contrário, tenho nojo e as vezes ânsia de vômito ao sentir o cheiro. Sou a única vegetariana da família e no inicio foi muito comum ouvir piadinhas a respeito ou até aqueles que tentavam me amedrontar, além daqueles que claro, julgavam que fosse uma moda passageira.

Meu incentivo pra quem pensa em se tornar vegetariano é : Leia! Leia muito a respeito. Se informe. Existem milhares de sites, de comunidades, de receitas e etc que ajudam a elucidar milhares de dúvidas que a grande maioria das pessoas tem. Posso dizer que nesses 5 anos, doenças que até então era recorrentes como gripes, resfriados e até viroses, quase não tenho mais. A minha saúde melhorou muito e minha disposição também. Não sinto sono além do normal, muito menos canseiras. Me sinto limpa. Outra coisa que as mulheres reclamam muito é do intestino preguiçoso. Saiba que sendo vegetariana, meu intestino funciona como um relojinho todos os dias. Só vejo benefícios em ser vegetariana. Não consigo citar algo ruim sobre ser vegetariana. Mas a melhor de todas as coisas pra mim, é saber que poupei através da minha alimentação, a vida de muitos animais e que a minha consciência está tranquila. Recobrei no alto dos meu 30 anos, aquela inocência perdida da infância e passei a voltar a enxergar os animais como seres que sofrem, que sentem dor, medo e que acima de tudo amam!


Obrigada especial: A queridissíma Mariana pela oportunidade de escrever no blog algumas palavras sobre minha experiência. A minha amada mãe, que me apoiou nesse trajeto e hoje também esta deixando de consumir carnes. E a minha gata Milly, que me ensinou muitas coisas através apenas do amor que tem por mim.
 

6 comentários:

Fada da Natureza disse...

Olá, legal seu post...sinto em dizer que fracassei na tentantiva de me tornar vegetariana....já não sou muito boa de culinária, cresci numa família super carnívora...e fracassei, fiquei longe dos cadaveres durante 4 meses. Mas não aguentei comer sempre a mesma coisa. Mas pelos animais...tentarei novamente!

Mariana M. Thomé disse...

Luka...obrigada por dividir conosco sua experiência. Quando criança tinha essa mesma sensação de tristeza desesperadora quando entrava num açougue. Para mim aquilo não poderia ser tão normal e aceitável para o resto do mundo como parecia ser. Fui crescendo e interrompendo a carne na minha vida de tempos em tempos, desde a infância, sempre evitando, mas nunca abandonando o consumo definitivamente. Ainda como peixe, mas carne de boi e frango não sei mais o que é. Porco, felizmente eu nunca nem gostei. Tenho a sorte de preferir legumes e verduras a qualquer outra coisa. Uma salada de tomate me anima bem mais que um fillet acebolado. Pretendo ainda párar de consumir leite e ovo. Pouco me alimento de soja, como vc, até pq a soja tb é um problema ambiental, ao meu ver. E gostaria de estender esse comentário ao boicote que devemos fazer as empresas que utilizam animais para testes cruéis em nome do bem-estar da humanidade. Para mim uma humanidade que trata seus animais dessa forma para defender seus interesses não deveria nem ter bem-estar. Gostaria de indicar também um documentário da PETA "I am an animal", que foi exibido pela HBO e retrata muito bem em que condições vivem esses animais de abate, que além do sofrimento evidente e do final óbvio, ainda são molestados e torturados pelos seres-humanos tidos como racionais. É forte, mas é verdadeiro...e enqto não tivermos contato com a verdade, nos sentiremos no direito de ignorar os fatos e isso nos torna cúmplices.

Roberta Fabiane disse...

Fiz uma tentativa de me tornar vegetariana,mas acabei cedendo a pressão social.A gente escuta piadinha e já me chamaram até de fresca.Hoje tenho uma filhinha e me sinto ainda mais responsável em relação a natureza de um modo geral,por isso,estou tentando mais uma vez me adaptar ao vegetarianismo e ensinar minha filha enquanto ainda é pequena.

Luka disse...

Oi gente, eu escrevi o texto pro blog da Mari. Quero agradecer mais uma vez a ela pelo espaço!
Quem quiser tirar dúvidas comigo sobre o assunto por favor sintam-se a vontade.
Escrevam no meu email lukapires@gmail.com ou sigam-me no TWITTER @Lukapires
No mais, espero ter elucidado algumas dúvidas sobre o assunto, e continuo a disposição.
Continuem acompanhando o blog da Mari, pq com certeza é um dos melhores blogs que existem Abraço a todos

Van disse...

Parabéns, Lu!!! Seu texto ficou muito informativo e com muita sensibilidade. Acabei me identificando bastante com a sua infância, eu também me lembro de chorar quando minha mãe mostrou uma cabeça de galinha na pia da cozinha e em outra ocasião que fomos comprar a galinha viva e saiu de lá de trás da sala já morta e embalada... acho que quando somos crianças temos um poder questionador muito grande que é oprimido pela ignorância dos adultos.

Também fiz 5 anos de vegetarianismo este ano ^^
No meu caso, virei vegetariana pela comunidade do orkut da PEA. Começaram lá os questionamentos mais fortes e tb tive muito apoio dos amigos. Isso foi fundamental.

Tb fui a primeira vegetariana da família e tb sofri preconceitos por desinformação das pessoas ao meu redor, mas depois da convivência, minha irmã virou vegetariana tb e a minha mãe hj em dia consome muito pouca carne. Até um primo meu virou vegetariano :-)))

Na minha infância eu tb sofria muito vendo dos animais na rua e sempre queria levar pra casa. Qdo não podia (quase nunca ¬¬) eu tentava cuidar deles na rua mesmo, mas mesmo assim ainda tinha um impedimento por parte dos adultos, parece que se incomodam, não sei. É muita ignorância na cabeça do povo ainda, é impressionante. A primeira coisa que as pessoas fazem é enxotar o animal, mesmo sendo nítido que ele não representa perigo algum e que precisa de ajuda. Nem sequer para dar um afago...

Só sei que os animais sempre foram muito importantes na minha vida e por eles eu faço o que estiver ao meu alcance.

Meu objetivo é virar vegana, pois ainda sou ovolacto. Eu concordo com os ideias vegans, porém, na alimentação, encontrei uma dificuldade um pouco fora do comum e sei que é só uma questão de tempo para superá-la. Depois disso, sei que esse desconforto que me persegue irá passar e eu estarei mais próxima da coerência que busco.

Enfim, eu adorei o relato e torço para que mais pessoas ao menos tentem adotar uma dieta vegetariana. Os benefícios são muitos. Se fossem ruins, o vegetarianismo estaria diminuindo e não crescendo a cada dia ;-)

Parabéns ao blog e á Luka Pires! :-)

Van

Mariana M. Thomé disse...

Fada da natureza - Como eu falei...tb fracassei inúmeras vezes...muitas delas exatamente por almoçar ou jantar na casa de pessoas onde o menu era simplesmente repleto inteiramente de carne e eu não tinha cara para lançar "Não vou comer, desculpem". Engolia seco o bife que me fazia mal. Mas é aquilo, fracassar é normal e insistir é virtude. Estamos todos vivos e nossa capacidade de nos reiventar é ilimitada!

Roberta - nem me fale...as pessoas sempre me olhavam com uma cara torta, como se eu fosse a mais fresca das criaturas. Quanto a família, tivemos sorte eu e minha irmã. Por mais que todos os outros membros comam carne, todos entendem nosso ponto de vista. E minhas tias sempre fazem pratos vegetarianos paralelos nas confraternizações familiares. Também tenho filhos, o mais novo come muito bem verduras e legumes, mas a mais velha detesta tudo o que é verde. Ambos comem carne, até por causa do restante da família. Mas minha filha já está tomando conhecimento de que os animais sofrem e são mortos e muitas vezes questiona isso, chegou a me dizer um dia "Mãe, vamos falar pro mundo: Não comam os porcos", mas ainda não associa o pedaço de carne ao animal que foi morto. Aos pouquinhos acredito que eles vão optar tb pelo não consumo de carne. O que me deixa feliz é perceber que existem mais mães no mundo como vc...o q me inspira a acreditar que o futuro seja mais humano.

Luka - obrigada pelo comentário...espero q essa seja a primeira de muitas outras parcerias...portanto pode começar a pensar em outros temas ligados ao vegetarianimo....beijos.

Van - obrigada pelo elogio e pela depoimento. Muitas informações da PEA e da PETA foram decisivas para condutas que eu busco seguir. O mais legal na sua história e perceber que sua forma de viver contagiou outras pessoas e você além de fazer sua parte...já está mudando o mundo ao seu redor. Muito legal!

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